arquivo | agosto, 2011

Prova de resistência

Alain Mimou nasceu em 1921 na Argélia, ainda colônia francesa. De família pobre, se alistou no exército francês como alternativa para mudar de país e de vida. Combateu na Segunda Guerra e teve seu pé dilacerado por uma mina terrestre. No hospital decidiram lhe amputar a perna. Mimou não deixou. Ficou internado até curar os ferimentos. Para fortalecer o pé atingido resolveu correr diariamente. Descobriu que tinha grande talento para corrida, sobretudo para provas de resistência. Tornou-se campeão nacional. Nessa mesma época, despontava para o mundo outro corredor brilhante, o Tcheco Emil Zatopek, a Locomotiva Humana. Na Olimpíada de 1948 se enfrentaram pela primeira vez, na prova de 10000m. Zatopek ganhou a prova, distante 300m do segundo colocado, Mimou. Rivais na pista, tornaram-se grandes amigos fora dela. Quatro anos depois, em 1952, Zatopek e Mimou disputaram novamente a prova dos 10000m. E a prova dos 5000m. Zatopek ficou com ouro nos 10000m. E nos 5000m. Mimou ficou com a prata nas duas provas. Zatopek disputou ainda a maratona. Ouro. Tornou-se o único atleta na história da Olímpiada a vencer as três provas no mesmo ano. Na Olimpíada de 1956 em Melbourne, disputaram a maratona. Zatopek que havia operado a hérnia a pouco tempo, sofria com o calor australiano. Mimou, argelino de nascença, não parecia incomodado com o calor. Correu pela primeira vez a maratona. Correu pela primeira vez para a vitória. Ao passar pela linha chegada, olhou para trás em busca do amigo. Zatopek vinha cansado, em sexto lugar. Mimou correu até ele, ficou ao seu lado, batendo palma, incentivando. Ao cruzar a linha de chegada Zatopek, exaurido, caiu de joelhos. Mimou, em pé, pediu: levante meu amigo e me dê um abraço. Eu, finalmente, sou um campeão olímpico! (RM)

Polaroid

Me chamaram para o casting de uma foto de cosmética. 45 +, sem botox é o briefing. Eba, gostei do conceito e o cachê é legal. Se não der certo pode ser que eu me isole por um tempo. Que droga que não sequei um vasinho embaixo do olho. Que ódio que não queimei umas manchinhas na testa. Se arrependimento matasse(comi torta de morango ontem), a essa hora eu estaria dura, seca e definitivamente descartada da foto. Enfim, eu podia estar mais competitiva, é isso. Agora se me escolherem aí ficarei fã da marca para todo o sempre. Não por causa da grana que é boa sim mas vai pro bolso e não pro coração.  Amarei e prometo ser fiel a essa empresa se me tornar prova viva de que uma mulher pode sim ser valorizada pelo jeito que ela veio ao mundo, assim relativamente normal, sem toxinas, sem costuras nem pelings. Só com uma camadinha básica de creme anti-sinais, uma sombra e um batonzinho. Menos que isso não dá.  (RL)

Você está bem?

Ficamos sem nos ver por quase um ano. Conversávamos por telefone e ela sempre dizia que estava bem. O caroço no seio se revelou um tumor mas, segundo ela, isso não era motivo para sobressaltos. A cirurgia foi de emergência. O tratamento, agressivo, lhe custou a cabeleira farta. As maçãs do rosto incharam e perderam a cor. Durante esse período sua filha vinha brincar com a minha. Estava sempre feliz. Quando perguntava sobre a mãe: ela está bem. Falava sobre a doença sem dramas, sem surpresas, sem melancolia. Como tememos aquilo que não temos estrutura para suportar. Olhava para essa menina, projetava minha filha e a possibilidade dela se tornar órfã. Não saberia lidar com isso. Que força essa mãe tem a ponto de encarar essa doença tão traiçoeira e ainda manter a serenidade para oferecer segurança aos seus filhos? Sinceramente, não sei. Lhe rendo toda minha admiração. Passou todo esse ano de tratamento dizendo que estava bem. Nos encontramos por acaso esses dias. Eu correndo, tentando resolver meus problemas. Ela com um lenço na cabeça, sorrindo, perguntou: e aí, tudo bem? Estou bem e vc? Eu…eu estou ótima! (RM)

Severina, um furacão Pernambucano

Aos 9 anos de idade, o pai ficou “seu dono”. A mãe fugiu quando ela tinha 21 . Até os 38, apanhava e sofria abuso no mínimo 3 vezes por semana. Teve 12 filhos, 7 morreram. Severina é o nome dela. Passou 1 ano e meio na prisão e agora, finalmente, está solta. Foi absolvida mesmo assumindo que pagou 800 reais pra matarem o animal que era seu pai. Na minha opinião o Estado deveria reembolsá-la. Esse homem não valia um centavo. Lendo a reportagem da Folha de São Paulo soube que Severina só achou coragem pra reagir quando o pai lhe ordenou que entregasse sua menina, ao mesmo tempo filha e neta dele, pra encarar o mesmo pesadelo. Foi nessa hora que Severina percebeu que tinha dentro dela a força de um furacão…aí ela devastou o estrupício.   (RL)

Minotauro, Minitouro

Estou chocada. O povo quer sangue, homens e mulheres vibram com sangue, tem alguma coisa muito errada. Escrevo esse post enquanto assisto, ou melhor, suporto, as cenas do tal UFC. Nem sei o que significa essa sigla, nunca tinha ouvido falar. Acabo de jantar e já sinto a indigestão chegando. O lutador da Bulgária deu tanto soco na cabeça do Brasileiro que não é possível o cara sair do ringue com algum raciocínio. Coisa de louco. E por que estou em frente à TV ? Porque percebi que o evento  mobiliza muita gente. Segundo o locutor é o esporte que mais cresce no mundo. Fui conferir. A foto ao lado eu tirei agorinha há pouco. Pra tudo dá-se um jeito né? Esse celular pendurado é do manobrista, que não podia perder as lutas de jeito nenhum. Ele me contou que assiste direto, na TV Combate. TV Combate?? Mas hoje não, porque é um dia especial e a transmissão pela Rede TV é pra todos os sanguinários de plantão. Chegou a hora do Minotauro lutar. E eu achando que pelo tamanho da gritaria ele era o mais furioso. Que nada, ainda temos o maioral: Anderson Silva. Pra mim chega.    (RL)

Máximas infantis

Poucas coisas são tão divertidas quanto o universo infantil. Minha filha mais velha, quando tinha uns 4 anos, queria entender porque nossa cabeça não para de pensar. Não conseguimos fornecer nenhuma explicação satisfatória e ela se punha chorar toda vez que tentava não pensar em nada. Ficava sentada, fechava os olhos, tentava, tentava e de repente as lágrimas: a cabeça continuava pensando!  Uma amiga viajou e ligava diariamente para a filha de 5 anos. A menina cansada de esperar aquela mãe que não voltava, perguntou: Mãe, fala a verdade, você morreu? A filha de outra amiga entrou no elevador e Mãe, por que ele é gordo? Por mais difíceis que essas situações sejam no momento, acabam se tornando boas histórias. Espero que a professora de ascendência árabe da minha filha pense dessa mesma forma. Na avalição de história perguntou qual a principal contribuição do povo árabe para nossa sociedade. Resposta: a esfiha. (RM)

Alto e bom som

Na esquina da minha casa tem um ponto. Nesse ponto tem 10 taxis. Cada taxi tem um dono. E um dos donos é fanho. Fanho demais. Já é a segunda ou terceira vez que “pego” ele e sempre fico pensando no esforço do homem pra se comunicar. Não deve ser pequeno pois, com o perdão do adjetivo, o caso é gritante. Vamos virar na rua Marselhesa, eu falei. Ãeeã, ele repetiu, querendo me assegurar que havia entendido. Ironicamente, esse é o caminho pra aula de canto. Lá onde a voz é o centro das atenções, com mil teorias e exercícios ao seu dispor. Chegamos. O taxista recebeu o pagamento pela corrida e seguiu seu caminho, inabalado. Já o rendimento da cantora na aula foi bem melhor do que o costume. Uma questão de perspectiva e súbita valorização da matéria prima.   (RL)

Sua majestade, o Pedreiro

Já comentei em outros posts que meu prédio está cercado de obras. Para qualquer lado que me dirija dou de cara com um prédio em construção. Pois bem, essa semana foi um tal de caminhão pra lá e caminhão pra cá, que fiquei por diversas vezes parada uns 5min no horário do almoço aguardando esses caminhões manobrarem. Aproveitei esse tempo pra reparar na dinâmica dos pedreiros. Todos estavam com sua quentinha, comendo com a colher, rindo, brincando. Exceto um. Ele não senta no chão como os outros, não come com colher, não grita e não faz brincadeiras. Arrumou uma mesinha onde dispõe sua quentinha, garfo e faca, seu copo de alumínio e a garrafa de café. Come em silêncio, com postura e com alguns comentários maldosos, nem por isso menos espirituosos, dos seus colegas. Admiro essas pessoas que, em qualquer circunstância, preservam sua essência. A majestade, realmente, não está na coroa mas na dignidade dos atos. Espero que esse prédio de luxo que ele ajuda a construir reúna pessoas dessa mesma estirpe. (RM)

Fui

Milagres acontecem. O universo conspirou a meu favor. Tanto a marginal Pinheiros como a Tietê  ontem deram uma trégua. Me deixaram passar. Da ponte  Cidade Jardim até o início da rodovia Ayrton Senna, 8 e meia da manhã, sem nenhum congestionamento. Acho digno registrar essa generosidade do trânsito pois o costume é rogar praga. Cheguei em Campos do Jordão em 2 horas e 10 minutos, o céu  azulando quanto mais eu me afastava de São Paulo. Fugi no meio da semana. Coisa rara. Tão improvável quanto as marginais livres. Tão precioso quanto o que vim fazer aqui: curtir 2 dias com meus sobrinhos que moram em Dubai e que  só encontro  uma ou duas vezes por ano. Quando a gente faz a coisa certa em geral as portas se abrem.   (RL)

O show tem que continuar

Ontem, lendo as matérias do fim de semana, duas notícias me chamaram a atenção. A primeira sobre a modelo Hailey Clauson que tirou essa foto em cima da moto aos 15 anos. Os pais estão processando tanto a marca de roupa que contratou a menina, quanto o fotógrafo que a fez beber cerveja para relaxar durante o ensaio. Sei lá onde eles estavam no momento que liberaram as fotos mas agora pedem 28 milhões. Não sei também onde estava a mãe dessa outra menina, Thylane Blondeau, hoje com 10 anos. Ela que ilustrou as páginas do famoso editorial da Vogue que demitiu Carine Roitfeld. Que indústria é essa que transforma meninas em símbolos sexuais? Que pais são esses que permitem isso? Que sociedade é essa que consome essas imagens? E aqui vale mencionar que essas meninas não se tornam adultas apenas nas fotos. Tem uma jornada de trabalho exaustiva, convivem em um meio competitivo, predatório, onde a prioridade não é o colégio, as brincadeiras, as amizades, mas o holofote. São meninas/produto. Os pais concebem, a indústria vende, a sociedade consome. A segunda notícia que me chamou  atenção foi a desse bezerro de Barretos. O coitado nem sabia que fazia parte de um espetáculo que, como o mundo da moda, rende milhões. Corria, sem rumo, quando foi golpeado. Se debateu, tentou se salvar. Mas assim como Hailey e Thylane, foi abatido na infância. Sob os olhos da multidão. (RM)

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