arquivo | outubro, 2011

Dia dos doces

Hoje é o dia das Bruxas. No passado, BEM lá atrás mesmo,  havia motivo pra cada um dos rituais praticados nessa data. Caveiras, teias de aranha e fantasmas de pano, por exemplo, serviam de proteção contra os espíritos que, no final do verão(no hemisfério norte), desciam em busca de um corpinho humano pra chamar de seu. Agora é bem ao contrário. Os espíritos “de verdade” perderam a vez e os encarnados é que se vestem de fantasma, diabo e morcego, pra depois saírem assustando seus semelhantes. Esse é o moderno Halloween: uma festa mais pra engraçada que pra assombrada, à luz do dia mesmo, e sem churrasco de bruxas. Pessoalmente, gosto é das criancinhas fantasiadas de abóbora, que vão de porta em porta ameaçando aprontar alguma se não ganharem balas, pirulitos ou chocolates. Embora seja uma tradição bem mais recente, a encenação das travessuras também já está com os dias contados. Como fieis representantes de uma geração que não tem paciência pra nada com cara de analógico, pra que perder tempo com teatrinho? Me aparece uma garotinha com roupa de princesa cor de rosa: Tia, tem doce? Só isso tia?  (RL)

Entre as quadras e os palcos

Minha vida, atualmente, se resume a isso. Nunca joguei e tampouco fui dada a performances, mas divido meus dias entre jogos e apresentações. Um marido técnico e uma filha que ama teatro. E por mais estranho que possa parecer, a semelhança entre esses dois mundos é imensa. Durante anos acompanho meu marido escalando equipe. As dificuldades e o dilema de escolher quem vai ocupar as poucas vagas de um time. De outro lado, vejo minha filha aguardando ansiosa o resultado de uma audição. Relembra todos os momentos do teste, os erros, os acertos, o saldo. Rói as unhas, refaz os passos, fica ao lado do telefone esperando a aguardada ligação. Quando o trabalho começa, mais que um time, ele precisa formar uma equipe. Ela, se esforça em fazer parte do grupo, em acompanhar o que é exigido, em responder à altura a confiança que lhe foi dada. Treinam, ensaiam, com a certeza de quem ninguém é melhor ou pior, apenas mais preparado. Não desistem, não sucumbem, ainda que algumas noites sejam passadas em claro pensando na equipe adversária ou nas dificuldades do novo papel. Enquanto ele já aprendeu a lidar com a competição, ela ainda se ancora nas lágrimas para lidar com as vaidades do meio. O processo, enfim, é muito parecido. Ontem, quando subiu ao palco ela não buscava apenas os aplausos. Ele, que viu sua equipe subir no pódio para receber o ouro, não buscava apenas uma medalha. Eles buscaram e conquistaram um sonho. Cada dilema, cada dificuldade, cada lágrima, valeram a pena. Agradeço aos dois que me ensinam diariamente que, sim, é possível sonhar. E principalmente, que é possível fazer acontecer. (RM)

Pessoal e transferível

Outro dia falei que o mundo tá pequeno pra caramba. Quero acrescentar que, além de estarem transbordando do planeta, as pessoas também não cabem mais nem em si mesmas. Privacidade é a palavra mais cafona da atualidade. Ninguém respeita porque no fundo ninguém mais quer uma intimidade que seja só sua. Pra que resolver problemas sozinho se podemos exibi-los nas redes sociais e receber apoio de um milhão de amigos? Esse comportamento adolescente, de contar tudo, se espalhou por todas as faixas etárias. Digo isso e me incluo no grupo pois “me compartilho” nesse blog diariamente. Ainda bem que não sou celebridade portanto preciso apenas de bom senso pra manter meu “livro aberto”, numa boa.  Não é o caso de Zezé de Camargo e Luciano. Ontem de manhã não só li como assisti a cena da desavença entre os irmãos. Em 30 segundos o Brasil inteiro soube. Diante de tanta exposição, a briga aumenta demais, ganha mil interpretações, reportagens, os fãs possivelmente farão vigília…enfim…é fato que a expressão “vida pessoal” – pelo menos a deles – já foi pro espaço.  Ou talvez tenha ido só até a nuvem mais próxima, mas não sei se isso aumenta as chances de resgate.   (RL)

O fruto não cai longe do pé (será?)

Sei que a Renata abordou esse assunto ontem e, pelo bem do blog, deveria alternar o tema. Mas depois de passar uma manhã na 25 de março, perseguindo travesti, me sinto no direito de ser redundante. Para vocês entenderem a situação é importante atentarem para o fato que sou um desastre em tudo que se refere a aparência. Não sei o que está na moda, não sei me maquiar e uso o mesmo corte de cabelo durante anos. Meu guarda roupa vai do branco ao preto, passando apenas pelo bege, marrom e marinho. Ponto. Meu estilo é nulo e meu lema é less is more. Dito isso, vamos ao que interessa: tenho uma filha perua. Do tipo que só sai montada. A roupa – ou seria figurino? – é uma forma de expressão. Tudo é over. Não pense que estou falando de uma Penelope Charmosa. Usa rosa, assim como usa um laranja vibrante ou roxo e verde, ou tudo junto. Para coroar, nunca sai sem um chapéu. Ou fascinator, ou boina, ou lenço, ou… O que para mim é too much, para ela é essencial. Agora vem conquistando adeptas: mães me ligam para pegar dicas! Esses dias, ao chegar em casa, ela estava gravando um vídeo – um programa com dicas de moda e maquiagem. Felizmente não conseguiu criar uma conta no youtube. Salva pelo gongo. Cada evento requer um cuidado minucioso na escolha do visual. Por essa razão ontem tive que ir até a 25 de março, com a lista de acessórios a garimpar. Ao perguntar onde eu encontraria aquilo tudo, a resposta veio rápida: mãe, vai pra muvuca. Quando aparecer um travesti, segue ele. Lá fui eu. Sol, calor, sede, ambulantes gritando, esbarrões, até me deparar com duas figuras que cabiam na descrição que ela me passou. Saí correndo perseguindo a dupla. Entrei nas mesmas lojas. Logo eles perceberam e deram um jeito de aproximar. Mostrei a lista, me deram dicas ótimas. Voltei, e pela reação dela, arrasei. Ou melhor, quase. Faltou a estola, com pele de mentira, branca e preta, tipo dálmata… Ai ai, nunca quis tanto que uma filha tivesse me puxado. Tão mais fácil ser bege, nula, previsível! (RM)

Meu armário fala

Não sou uma pessoa dedicada à moda. Fui dizer por aí que acho muito feios aqueles vestidos vermelhos da abertura da novela Fina Estampa. E não é que me “alertaram” que aquela espécie de capa cinza que também desfila na tela é uma alusão ao macacão do Pereirão? E que a sequencia mostra toda a transformação da encanadora em ricaça? Pior que faz sentido mesmo. Tomei! Pensando nisso me lembrei de uma exposição que vi há 10 anos, com as roupas da Jackie O. Ao lado de cada modelo tinha não só a foto da ocasião em que ela foi usada como também uma longa explicação, recheada de politica. Roupa bege pra não ofuscar o presidente, roupa rosa pra oferecer suavidade aos convidados, roupa um pouco mais ousada pra transmitir força. Enfim, nada no figurino da primeira dama era por acaso. Tudo tinha um objetivo. Tudo interessante mas muito aflitivo também. A coitada não podia nem pensar em sair do script. Graças a Deus posso vestir o que eu bem entendo. Mas reconheço que me comunico bem melhor com palavras que com roupas.  (RL)

Discretamente

É sábado. No almoço de aniversário do amigo em comum, um homem observa uma mulher. O olhar que finge estar perdido na verdade está é bem achado. Há tempos ele a vê. Toda vez que se encontram dá um jeito de puxar conversa, sempre a mesma conversa. Há muito ela captou o olhar vindo dele. Finge buscar qualquer coisa e por querer passa raspando. Ao tocá-lo, sorrí. Tudo precisamente previsível. Hoje torce que seja diferente, quem sabe, e pensando nisso esquece até do quindim. Em volta da piscina formam-se pequenos grupos, garçons circulam com bandejas de cafezinho, crianças pedem toalha às mães, charutos acendem. Alheia ao zumbido humano ela termina seu café, engolindo expectativas ao lado da irmã, no banco do jardim. Quando menos espera o homem vem. Avança na direção dela, sua decisão tomada. Então ele pede licença e delicadamente rouba a xícara de suas mãos. Afasta-se em direção ao bule. Serve e toma seu café quieto, pousando lentamente a boca sobre a marca do batom na  porcelana morna. (RL)

Viver sem sentir

A viagem foi ótima, mas corrida. As crianças estavam animadas, uma semana curtindo o calor do nordeste. Praia, piscina, sol, dunas. Levantavam e rapidamente se arrumavam para o dia de cheio de atividades que os aguardava. Corriam e iam de um lugar para outro para dar tempo de ver tudo e não perder nada. Não tinham tempo de aproveitar a paisagem, a história. Fotografavam as crianças sorridentes. No primeiro dia não deu tempo de curtir uma praia, tinham que dar um pulo na feirinha, trazer umas lembrancinhas. Nas fotos da feirinha as crianças já não estavam sorrindo, mas certamente era o cansaço. Elas estavam amando. No dia seguinte o menor, com uma leve insolação não podia sair e então todos ficaram no hotel. O mais velho também não pode ir na piscina, já que o sol do nordeste é traiçoeiro e, por Deus, dois com insolação não dá! No terceiro resolveram fazer um passeio pelas dunas, mas ela enjoou e o dia acabou aí. Nas fotos, as crianças continuavam sem sorrir. Mas já estavam com uma corzinha, bem vermelhinhos. Passaram a semana entre passeios e infortúnios. As fotos mais animadas eram da chegada, no aeroporto, com o sorriso e a expectativa dos próximos dias de férias. Como ela me contou, a viagem foi ótima, mas corrida. Um tributo aqueles que correm, fazem e não vivem. (RM)

Escrito nas estrelas

É muito fácil explicar as coisas depois que elas acontecem. Os economistas são experts nisso. Mas é na vida particular que essa mania de ligar os pontinhos é mais divertida. Ontem fiz um jantar em casa, para uma prima que vai se casar. Vieram as duas famílias e acho que por conta do clima de festa lembrei de uma história bonitinha. Quando eu tinha 18 anos me apaixonei por um guitarrista. Na época, coloquei dentro da Fender(marca da guitarra), uma fotografia minha, com essa prima no colo, ela então com uns 2 anos de idade. Enquanto namoramos essa foto morou lá. Tanto tempo depois eis que o noivo da prima, por coincidência, é cantor de rock. Acho romântico pensar que esse amor tem um quê de predestinado. Tá tudo ligado! A danada da menina já estava fisgada pelo rock ‘n roll, desde bebezinha.      ( RL)

Profissões 2

Texto da minha filha de 12 anos. (RM)

Eu tenho toda minha vida esquematizada. Vou ser atriz de teatro musical e estudo para isso. Bom, pelo menos eu tento, perco muito tempo com o colégio. Nunca gostei de nenhum colégio e olhe que já estudei em muitos. Os colégios são feitos para crianças que não tem dificuldades. Sou DDA então sempre tive dificuldade e poucas vezes achei que a escola quis me ajudar. Os colégios hoje te ensinam a competir, a vencer. Não te educam pra vida mas para o vestibular. Comecei a trabalhar com 9 anos e descobri que muito mais importante que o resultado, é o esforço. Com a escola conheci o fracasso. Com o trabalho o reconhecimento. Fracassar antes de vencer foi a maior lição que aprendi. Hoje não tenho medo dos meus erros, sei que uma hora ou outra vou aprender, vou conseguir. Tive a sorte de descobrir o que eu amo e perceber que posso fazer outras coisas onde me saio melhor que no colégio. Muitas crianças não tem essa sorte, aprendem apenas o fracasso. Acham que valem tanto quanto a nota do boletim, quase nada. Na maioria das vezes o boletim me dá uma nota muito abaixo do meu valor. Uma vez uma professora me disse que eu nunca seria nada. Espero encontrar essa professora daqui uns 10 anos e mostrar que se dependesse dela eu realmente não seria nada. Por sorte encontrei outras pessoas que me ajudaram e me ensinaram. A maioria delas não conheci no colégio.  

Profissões

Texto feito pela minha filha de 9 anos. (RM)

Desde pequena, nós ficamos pensando no que vamos ser quando crescer. Os amigos e os professores sempre te perguntam. Você fala alguma coisa, mas quando cresce as vezes não é aquilo. Tem que pensar muito nessa decisão, pois provavelmente será essa a sua profissão o resto da vida. Ou não. As pessoas ficam indecisas ao pensarem nisso, ficam preocupadas. Algumas tem dificuldades em achar essa profissão, pois não sabem o que querem ser. Por isso eu acho que sempre se deve estudar muito. Não gosto dessas as crianças que vão para o colégio e não querem aprender, que são imaturas, não prestam atenção e prejudicam o aprendizado dos amigos. Eu adoro estudar e não entendo essas crianças que não dão valor ao colégio. Acordo feliz todos os dias e quando volto da escola, a primeira coisa que faço é a lição. Quando acabo, vou ler algum livro. Leio uns 2 ou 3 livros por semana. As pessoas me chamam de nerd. No que me importa a opinião delas?  Eu ainda não sei o que eu quero ser, mas eu me esforço e acho que vou ser uma boa profissional. Isso é o importante.

 

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