arquivo | novembro, 2011

Um tributo a superioridade

Limpava o banheiro do aeroporto, quando viu três moças da sua idade conversando sobre o trabalho. Uma delas dava instruções às outras duas. Parou de recolher o lixo, ficou escutando. Resolveu perguntar como elas conseguiram aquele emprego, se foi indicação ou via agência. A moça que dava instruções às outras duas, passou as orientações superficialmente, com certo desdém. A moça da limpeza, com olhos atentos a tudo que era dito, repetia ‘tenho estudo… tenho estudo e não quero ficar limpando banheiro’. A moça que dava as instruções sequer lhe dirigia o olhar. Acabou de lavar a mão e foi embora, levando com ela a indiferença e o sorrisinho de deboche.  A moça da limpeza ficou alguns segundos parada com a mão na cintura. Virou e voltou a recolher o lixo.

Nossa assistente, que é baiana,  pediu um adiantamento de férias para buscar a mãe que está doente. Sabe como é, ela não pode deixar a mãe ser cuidada por baiano. Não vai prestar. Melhor trazer para São Paulo.

E por fim,  deixo esse vídeo. Uma reflexão sobre todos aqueles que trazem cunhado na pele, na classe, na alma, a condição de serem julgados inferiores. (RM)

Cheia de certeza

Todo mundo tem pelo menos uma história ridícula pra contar. Eu tenho várias. Escolhi essa, que já prescreveu faz tempo.  Morávamos na casa do Brooklin portanto eu devia ter 9 ou 10 anos. Tinha trazido uma amiga da escola e, como qualquer criança, quis dar uma de bacana pra cima dela. Então tive uma ideia que com toda certeza iria deixá-la super impressionada. Ao lado do telefone, na mesinha do hall de entrada, repousava uma folha de cheque preenchida e assinada . Estudei o documento com cuidado e gritei: olha Carmen, esse cheque não tem fundo! Ela veio correndo. Nossa, é mesmo Renata! Ficamos lá, as duas, segurando a onda desse papo absurdo. Eu sem saber o que falava, ela confirmando minha maluquice só pra não dar bandeira da própria ignorância. Afinal cansamos desse escândalo e fomos brincar de boneca. O cheque ficou lá, sobre a madeira fria, tentando se recuperar da maldade que fiz com ele.  (RL)

Acerto de contas

Nós, adultos, temos a mania de ficar bonzinhos em dezembro. O espirito Natalino é que faz isso. Parece que antes das promessas para o ano que vem, é preciso acertar contas com os 365 dias que se vão. Daí a necessidade de fazer o bem. A regra é perdoar, beijar e abraçar. Eu acho que esse comportamento nada mais é que a versão adulta da cartinha para o Papai Noel. As crianças escrevem como foram bem comportadas e estudiosas, como merecem ganhar esse e aquele presente. E já que não pega bem um marmanjo escrever, o jeito é sorrir, tolerar e  confraternizar, esperando com isso atingir uma consciência aliviada ou até  zerada. Quem vai em festa da firma, e fica do começo ao fim, ganha vários pontos. Quem dá caixinha de Natal para os entregadores de jornal, do supermercado, da pizza, para os frentistas, manobristas, etc., também fatura ‘bônus points’. Quem não dá panettone para os empregados do prédio, e se esforça para escolher um presente menos mixo, quase que consegue ser perdoado por todos os pecados do ano. Se você conhece alguém que precisa urgente incluir boas ações no seu balancete emocional, compartilhe esse post!  (RL)

Feliz da vida

Não trocaria a minha família original, aquela que me pôs no mundo, por nenhuma outra do planeta. Mas para que esse post faça sentido preciso admitir que somos todos um pouco quadrados e um pouco tensos. Por sorte meu irmão resolveu inovar e se casou com a Raquel, a pessoa mais descontraída e bom astral que eu conheço. Digamos que o comportamento natural dela é o oposto do nosso. Por exemplo: ela sempre puxa papo com a moça do pedágio, pergunta se não é solitário trabalhar naquela cabine, e por aí vai, até que o carro de trás buzine.  Segundo o meu irmão, a Raquel é tão comunicativa que dá bom dia até pra camelo. No restaurante em Nova York, ela chamou o garçom e incumbiu o coitado de descobrir a marca do sabonete do ‘ladies room’, que ela tinha adorado. Outra vez, estávamos jantando em Dubai (onde eles moram), e ela me aparece vestida de muçulmana, só com os olhos de fora, tagarelando em árabe. Lá, onde nada é permitido, ela consegue tudo o que quer. Até no casamento da filha do sheik ela entrou, e não como bicona. Foi convidada mesmo. Acho difícil que alguém do lado careta da família, se renda ao seu jeito livre, leve e solto de viver. Mas eu bem que gostaria. Acho que ela faz um bem danado pra todos nós.

Postagem feita na madrugada de domingo em homenagem a ela, que deve estar acordando a essa hora!  (RL)

Baliza

Atrasada como sempre, entrei em uma dessas ruazinhas para tentar cortar caminho. Com carros estacionados em ambos os lados, a rua permitia apenas a passagem de um carro por vez. Segui em frente e fui obrigada a esperar um carro estacionar. O motorista manobrava,  ia pra frente, voltava para trás, virava o volante, avançava, mais uma rezinha, e ainda que a vaga fosse generosa, o carro se recusava entrar. A fila atrás de mim começou a crescer. Lá pelas tantas, a porta do passageiro abre e desce um senhorzinho. Ele ficou na vaga ditando instruções que pareciam impossíveis para o motorista que se atrapalhava cada vez mais. O senhor começou a perder a paciência, colocava a mão na cabeça, gesticulava, fazia os movimentos que deveriam ser repetidos pelo motorista, em vão. O carro não entrava. As buzinas aumentavam. Que raios de motorista não consegue estacionar numa vaga dessas? Para piorar a situação aparece um caminhão no sentido oposto. Ficamos ele e eu com aquela visão privilegiada. Como as manobras continuavam sem sucesso e o senhor que orientava já estava tendo uma síncope, o motorista do caminhão deu uma ré e estacionou em uma rua transversal. Voltou em socorro do motorista e se prontificou a estacionar. Desce então do carro uma senhorinha, por volta dos seus 80 anos. Animada, agradece a ajuda, não sem antes mencionar que sempre estacionou muito bem, mas que na companhia do Geraldo (o senhor) tudo fica impossível. Irritado, Geraldo proíbe o motorista do caminhão estacionar seu carro. Vai que é um ladrão e leva o carro embora? Nem pensar. O motorista então sugere que o próprio Geraldo estacione. A beira de um ataque de nervos, Geraldo pergunta se o motorista é imbecil ou quê? Obvio que se ele soubesse dirigir o carro já estaria na vaga! Atônito, o motorista do caminhão resolve buscar seus documentos para comprovar que não é ladrão e que pode estacionar o carro. Enquanto o motorista seguia em direção ao caminhão, Geraldo fez um sinal para mulher que voltou para o carro. Pé na tábua, seguiram em frente cantando pneu… E ficamos o motorista e eu sem entender nada, ao som das buzinas que nao cessavam. (RM)

Frágil equilíbrio

Hoje serão entregues e instaladas as gravuras que comprei semana passada. Ontem soube que a dona da galeria faleceu.

Uma amiga queridíssima está passando por um momento delicado na família. Outra recebeu, eufórica, a noticia que a filha entrou na faculdade.

Meu irmão, que mora em Dubai, chegou na terça feira. Só consegui vê-lo na quarta. Na quinta ficamos os dois presos no trânsito, um em cada canto da cidade.

Para viajar em Maio de 2012 precisei comprar as passagens ontem. E o voo que eu queria já estava lotado.

Tenho um serviço de gráfica pendente. Fiz 2 orçamentos: um deu 900 o outro 200. Sinto raiva do primeiro, desconfio do segundo e um assunto que  deveria ser resolvido em minutos, me toma horas.

Alívio. Consegui avançar bastante na minha lista de presentes de Natal.

Meu Dia de Ação de Graças foi de todas as cores. Apesar desse frágil equilíbrio, que se renova diariamente, tenho muito o que agradecer.   (RL)

Ctrl c + Ctrl v

Nos anos 80/90 as campanhas publicitárias eram obras de arte. Éramos fisgados pelas imagens que acompanhávamos avidamente pela tv. A trilha virava hit, o produto virava moda. Comprávamos a ingenuidade, a liberdade, o sonho, não o produto. Na contramão desse fluxo, tínhamos a Benetton. As campanhas eram fortes, provocantes, polêmicas. Impossível ficar indiferente diante das imagens. No entanto, as campanhas foram rareando na última década e ressurgiram agora, com os selinhos entre representantes de Estado. Apesar de voltar o burburinho em torno da marca, a impressão que tenho é que já vi esse filme. Dizia Oscar Wilde que pegar uma idéia e transformá-la não é cópia, mas fonte de inspiração. Não vejo transformação e tampouco inovação nessa campanha, muito menos um resgate da tônica da marca. Vejo uma cópia das ações do passado e não das idéias. Uma pena. Queria novamente sentir aquele impacto e não apenas nostalgia.  (RM)

Não

Senti esperança ao ler as noticias sobre a lei antiálcool para menores. Alguns aspectos são  polêmicos mas, por definição, eu apoio. Nada como uma mega multa para acabar com a falta de noção que reina na maioria das mega festas. Aquelas em que os pais se isolam num canto, dando as costas para o mar de adolescentes bêbados. Aquelas onde geralmente rola um quebra pau. Onde meninas vomitam em seus vestidos de paetê. Eventos que custam uma pequena fortuna e que causam os maiores estragos, na cabeça, no fígado, dentes e ossos da garotada. Só espero que a tal fiscalização à paisana aconteça de verdade. Nas festas, nas baladas, nos bares, e quem sabe até nos ‘esquentas’, onde rola bebida à rodo. Ah! E também nos condomínios dentro e fora da cidade, considerados ‘território livre’(só rindo!), onde adolescentes alcoolizados praticam vandalismos de todo tipo. Não é porque sou careta, não é porque sou radical, ou, como alguns dizem, porque eu não entendo essa geração ou não confio. A lei é educativa e necessária, para que diminuam as estatísticas de mortes imbecis. Todo mundo está careca de saber que os jovens fazem coisas erradas mesmo, vivem testando seus limites, se acham super poderosos. Essa rebeldia natural(e até saudável), regada a bebida, vira bomba relógio. Uma hora explode. Soma-se a isso o fato de que muitos pais, apesar de morarem na mesma casa, vivem a quilometros de distância de seus filhos. Se houvesse mais conversa olho-no-olho, acho que até eles, os filhos, apoiariam a lei. É isso. Desconfio que falei o óbvio. Mas é que eu vejo cada coisa, ouço cada história….  (RL)

Reunião de condomínio

Quando cheguei a reunião já havia começado. A pauta era aprovação das contas, eleição do novo síndico e assuntos gerais. A mulher do 1001 que é conselheira lembrou que as contas não poderiam ser aprovadas, pois ela não pôde analisá- las. O síndico também não foi eleito, pois ninguém se candidatou ao posto, de modo que permaneceu o mesmo. A reunião começou mesmo com os assuntos gerais. A mulher do 401 reclamou do cachorro (que descobrimos não ser do zelador, mas do síndico) sendo apoiada pela moradora e conselheira do 1001. A dona do cão com os olhos marejados, contou a saga do bicho até conseguir moradia no nosso prédio. Não falou pouco e nem falou bonito, mas conquistou alguns adeptos. A moradora, conselheira e desocupada do 1001 contou pormenores da rotina do cão e escandalizou os demais moradores que decidiram pela saída do cachorro. Vencida essa batalha, ganhou força e disparou contra o zelador. Lento, tapado, burro. Pueril de tão burro, foi uma das pérolas da noite. Assim como fez com cão, descreveu a rotina do zelador. Os que  possuem a centelha da maldade, possuem também a da persuasão. Os moradores, impávidos, escutavam atentos o relato sobre zelador que passa o dia jogando vídeo- game. Perguntei como o prédio e a piscina se mantinham limpos, correspondências entregues, lixo no devido lugar, enfim como tudo funcionava perfeitamente se ele passava o dia no vídeo-game? Quase passei dessa pra melhor com o olhar que recebi. Discussões acaloradas sobre funcionários, prestadores de serviços e mais e mais relatos da moradora, conselheira, desocupada. O representante da administradora, que até então permanecia em transe, resolveu se pronunciar. Gostaria que resolvêssemos a questão dos condomínios atrasados. Que condomínio atrasado? Temos um morador que está em débito há 4 meses, foi a resposta. O salão ficou em silêncio, olhares cruzados, todos aguardando o ataque da 1001. Quando o silêncio se tornou insustentável, ela resolveu se pronunciar: como eu posso negociar essa divida? (RM)

Continue a nadar, continue a nadar!

Meu Deus como posso ser tão péssima? Estava eu num almoço cheio de amigos quando de repente olhei para uma pessoa que eu conheço e simplesmente não a reconheci. Passados alguns minutos meu anjo da guarda emitiu um alerta e lá fui eu remendar o estrago. Que vexame. Fico pensando que já devo ter feito isso outras vezes, possivelmente em dias de folga do meu anjo. Nunca saberei.  Também já passei vergonha ao contrário. Cumprimentei festivamente uma senhora e recebi de volta um olhar tipo ‘te conheço’? Por sorte não foi no mesmo almoço.  Sou a própria Dory, aquela do filme Nemo. E não sei o que fazer a respeito, além de pedir desculpas repetidas vezes. Agora me lembrei de outra situação. Tem uma amiga que eu cismo em chamar de Raquel, mas na verdade o nome dela é Rebecca. Eu já sei que não é Raquel mas o nome certo sempre me abandona, toda vez que nos encontramos. Fica aquele silêncio…e eu não apresento a moça para quem estiver comigo, por absoluto travamento mental. Eu juro que minha mãe me deu educação. Será que eu também esqueci isso?? (RL)

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