arquivo | janeiro, 2012

Elegância discreta

Tirei essa foto na varanda do meu apartamento. Reparem na casinha branca entre as duas torres. É a Casa do Bandeirista do Itaim Bibi, agora totalmente ressuscitada, após anos e anos de abandono. Graças aos empreendedores do moderníssimo prédio preto, a antiquíssima casa voltará a ser um patrimônio histórico ativo. Uma construção de taipa em plena Av. Faria Lima. Se dependesse do poder público ela continuaria morta pois foi tombada em 1982 e desde então só despencou. Na verdade chegou a ruir completamente mesmo.  Parece milagre mas, nessa foto, o que eu vejo é o novo abraçando o velho, o forte ajudando o fraco, o moderno reverenciando o antigo. Da minha janela, vejo a força da grana que ergue, sem destruir coisas belas.  (RL)

Um soco de cada vez

Indico esse livro mas já vou avisando que a história é triste. Mas é boa. Só não façam a mesma besteira que eu: fui assistir aquele filme iraniano, Separação, depois voltei pra casa e pra página 298. Não dá. Too much. O filme é uma tijolada e o livro não alivia. Mas é bom. Vale a pena. Queria tanto ter uma ideia assim, uma ideia completa e complexa como essa, que rendesse muitas páginas bem escritas e que “nos finalmentes” rendesse também uma graninha. É que o blog não dá retorno financeiro. Sem chance. Dá outro tipo de retorno – que vale ouro – mas vai direto pro espírito sem passar pelo bolso. Eu queria ter o blog e um livro. Será que estou deprimida? Quem mandou. Bom, mas voltando pra história, a personagem principal chama-se Alice. Ela não vive no país das maravilhas e tem um gato chamado Lúcifer. Pronto, já fiz a minha parte. Não conto mais nada. Só posso adiantar que…o filme também vale muito a pena. Mas é triste com T de trombada.  (RL)

Faça o que eu digo…

Todos os dias chegava do colégio, corria para o meu quarto, jogava o casaco para um lado, o tênis para outro, espalhava o material em cima da cama e não tirava o uniforme. Todos os dias levava um sermão do meu pai sobre a falta de critério. Uma pessoa sem critério, segundo meu pai, não prospera. É uma pessoa que não dá valor às coisas e faz tudo de qualquer jeito. Meu irmão era o campeão da falta de critério. Minha irmã, por outro lado, era muito criteriosa. Nossa empregada por exemplo, lavava os pratos de uma vez, não fazia uma pré-lavagem. Não tinha critério. Luisinho (um mendigo que meu pai deve ajudar até hoje) nunca teve critério. Jamais se lavou corretamente. Essas pessoas que compram cachorro-quente na rua, sem uma higiene, sem conhecer a proveniência dos alimentos… Todas pessoas sem critério. Nós, meus irmãos e eu, tomamos a Falta de Critério como o bordão predileto para irritar nosso pai. Fazemos isso ainda hoje. Achava engraçado até flagrar na minha casa uma faca suja jogada em cima da mesa, sujando a toalha. Quando dei por mim estava com a faca em punho dando um sermão nas meninas sobre a Falta de Critério. Desde então sou vítima dos comentários mais irônicos (Olha mãe, pega a falta de critério desse cachorro fazendo as necessidades na rua…). Aprendi muitas coisas com meu pai. Inclusive que, aqui se faz, aqui se paga… (RM)

Ah, te amo pai!!

Retratos da vida

Cena gostosa é chegar casa, depois de 20 dias de férias, e espalhar a viagem todinha em cima da cama.

Roupa usada embolada, presentes, histórias. A mala que voltou estufada começa a esvaziar. ‘Olha que fofo, olha que máximo’! A única explicação é a emoção: ‘não dava pra não comprar’!

Só a mãe entende a bagagem da filha. Daqui pra cima, a menina. Daqui pra baixo, o futuro, que fica tão menos duro, com esse kit de sobrevivência.

Tem camisola com aroma de chocolate, tem saia longa, óculos escuro, tênis rosa choque, calcinha de bolinha. Tem também um objeto não identificado: meio carteira, meio anel. Well…

O pai acha graça, atordoado entre pilhas de trecos. Ganha um moleton azul. Guarda a mala no armário. Depois, leva a gente pra almoçar. Entre uma garfada e uma risada, a saudade, aos poucos, se esquece de doer.  (RL)

Um momento

Semana passada meu marido estava em Campinas. Ligou avisando que estava voltando. Chovia muito, passava das 23h. 50 minutos depois meu telefone tocou e o visor acusou que era ele novamente. Atendi e uma voz desconhecida perguntou se eu conhecia o dono do celular. Sim, respondi, é meu marido. Ele havia esquecido o celular no restaurante. Nesse ínfimo lapso de tempo, entre confirmar que o conhecia e descobrir que o celular foi esquecido, imaginei um acidente. E nesse ínfimo lapso de tempo, fiquei atordoada. Ontem recebi um vídeo amador mostrando a ocupação do Pinheirinho: a polícia avançando, as pessoas correndo, pedindo calma, apontando crianças. Os policiais continuaram avançando, jogando bombas de efeito moral e spray de pimenta. Uma mãe que empurrava tranquilamente um carrinho de bebê, ao ver os policiais avançando, tentou fugir mas não sabia para onde correr, não sabia se pegava no colo o outro filho que estava no chão, se deixava a sacola que estava carregando… Nos poucos segundos que aparece no vídeo, essa mãe grita, implora, vai as lágrimas. À noite assisti perplexa o desabamento dos três prédios no Rio. E assisti também o desespero de familiares e amigos dos desaparecidos. Nas duas situações lembrei da ligação que recebi semana passada. Lembrei da dor e do desespero que senti naqueles míseros segundos. Um momento. É o que separa a alegria da tristeza, a vitória da derrota, a confiança do medo, a sensatez do desespero. É o que separa a vida e a morte. (RM)

Trophy partner

Aqui em São Paulo tem um senhor de idade avançada, bem conhecido, aposentado e muito rico, que descartou a esposa e agora ‘possui’ uma entourage de acompanhantes do tipo “trophy girls”. Já o vi algumas vezes, sempre cercado de 3 ou  4 mocinhas com 1/4 da sua idade. Ele sorridente, distribuindo presentinhos. Elas fazendo graça, passeando e faturando. É patético. Demi Moore, às vésperas de completar 50 anos, é outro exemplo de vaidade mal resolvida. O coração partido só agrava a situação. Sei lá como era a relação dos dois mas que o Ashton parece um troféu ele parece.  A questão é que a Demi também é bonita, deve ser rica e só tem 50 anos. Alguém precisa dar um toque pois a mulher está à beira de emagrecer até morrer.  (RL)

Filhotes

Difícil e completamente desnecessário escrever qualquer coisa depois do texto de ontem, da Isabella. Então, ao invés de escolher palavras, escolhi imagens. Essas duas fotos bastaram pra me convencer. Santa pesquisa na internet. Passei o fim de semana procurando, investigando, considerando. Como será impossível substituir a Filó, resolvemos partir para outra raça e a eleita foi essa: Parson Russell Terrier. Que tal? Alguém conhece criadores? Agora não sossego enquanto não encontrar meu filhotinho.  (RL)

A identidade de cada um

Texto da minha filha, Isabella Moreira. (RM)

Fui ver a exposição do Steve McCurry e dei de cara com a foto dessa menina Afegã. Fiquei tão impressionada com esses olhos que depois fui pesquisar um pouco sobre o Afeganistão. Antes de falar sobre o Afeganistão, quero falar um pouco sobre minha família. Somos em 5: meu pai, minha mãe, minhas 2 irmãs e eu. A Giulia minha irmã mais nova tem 10 anos. Ela tem cabelos compridos que vão até cintura. É o cabelo mais bonito que eu já vi. Ela cuida do cabelo sozinha e também gosta de cuidar das unhas que estão sempre compridinhas e lixadas. Sempre que pode, usa vestidos com florzinhas ou saias rodadinhas. Adora brincar de boneca e de jogos  com as amigas. Além disso, é a criança mais estudiosa que eu conheço. Só tira A e está sempre lendo. Lê livros e notícias o dia inteiro. Quando os amigos da escola faltam aula ou não anotam a lição, é para ela que eles ligam. Esses dias eu queria uma saia (tipo bailarina, dourada, A-MA-ZI-NG) da Zara e ela não me deixou comprar por conta do trabalho escravo. Também não podemos mais comer no Mc Donald´s pelo mesmo motivo. Nós temos muito orgulho dela. Mas se nós morássemos no Afeganistão, seríamos motivo de vergonha. Lá as famílias que não tem meninos são discriminadas. Se nós morássemos lá, meus pais cortariam o longo cabelo da Giulia. Ela não usaria mais um vestido de florzinha e sim um terno. Ela não poderia mais brincar de boneca com amigas. E ela não se chamaria mais Giulia. Seria Pedro, João, Antonio. Para deixarmos de ser uma vergonha, meus pais teriam que transformar a Giulia em um menino.  Por mais que continuasse existindo, a Giulia estaria morta. Lá no Afeganistão todos sabem quando uma menina é transformada em menino. Todos fazem parte desse crime. Fiquei pensando que esse mesmo crime acontece em vários lugares do mundo, inclusive no Brasil. Há 3 anos trabalho com teatro musical, comecei com 9 anos. Conheci muitas pessoas, crianças, adolescentes e adultos. São pessoas que trabalham duro, que correm atrás de um sonho e que na maioria das vezes tem vários empregos para se manter. São pessoas que eu amo e admiro muito. Não sei dizer quantos, mas muito são homossexuais. Muitos também foram mortos pela família. Outros foram mortos pelos amigos. No meu colégio vejo crianças e adolescentes sendo mortos quase todos os dias. Eles são chamados de bichinha, viadinho, boiola. Crianças e adolescentes que são como eu, como qualquer outro, que tem sonhos e esperança de viver em mundo melhor. Crianças que não tiveram escolha, nasceram meninas no Afeganistão ou homossexuais em qualquer parte do mundo. Crianças que são mortas todos os dias pela família, pelos vizinhos, pelos amigos, pela sociedade. Ninguém pode escolher nascer menino, menina, branco, negro, hetero ou homossexual. Mas todos podemos escolher: quantas crianças teremos que matar para aceitar a identidade de cada um?

Quem quer a força de Sansão?

Faz tempo que a palavra careca deixou de ser um adjetivo indesejado. Faz tempo que os homens estão ficando carecas mais por vontade própria que por destino. Faz tempo que eu vejo muito mais carecas jovens que carecas maduros. A maioria dos carecas jovens usa  bermuda xadrez e tem tatuagem. Ser careca é ser moderno, descolado, cool. E as mulheres? As modernérrimas de plantão tem cabelo bem curtinho. Pra contrapor essa tendência, acho que vou assistir o musical Hair, com seu um elenco 100% cabeludo. Naquele momento flower power da história, cabelo comprido sinalizava liberdade, força, paz e amor. Representava a juventude rebelde. Não sei se atualmente o cabelo, ou a falta dele, representa alguma coisa. Penso que hoje o cabelo apenas obedece a moda. Perdeu sua força politica. Na dúvida, mantenho o meu na altura dos ombros, ou seja, em cima do muro.  Eu ia terminar o post aqui mas aí lembrei dessa música do Arnaldo Antunes. Cabelo é como pensamento…quem pensa que cabelo é pasto? Adoro. (RL)

Orgulho e perda

Sou daquele tipo de mãe que acha que os filhos nunca crescem. Um dos primeiros choques que levei foi o primeiro dia de aula da Giovanna, minha filha mais velha. Ela tinha uns 2 anos. No colégio, enquanto outras crianças choravam e não saiam do colo das mães, a Gi corria e brincava no parquinho com os novos amigos. Nenhuma lágrima, nenhum drama. Aliás, as lágrimas e o drama ficaram por minha conta, quando contei para meu marido. Enquanto as outras mães passavam a tarde fazendo a tal da adaptação do filho, eu ganhava um beijo, um tchauzinho e era dispensada. Foi quando percebi que ela estava crescendo. E pela primeira vez fui tomada por esse sentimento contraditório de orgulho e perda. Os anos passaram e, naturalmente, percebi seu crescimento em muitas outras situações.  Ontem, fomos na auto-escola fazer sua inscrição, tarefa que já estava marcada desde novembro quando completou 18 anos. Enquanto assistia ela fazer todos os procedimentos sozinha, senti novamente que eu ganhava um beijo e um tchauzinho. Durante essa jornada de 18 anos fui equilibrando essa delicada e, as vezes, dilacerante sensação de orgulho e perda. Ontem, percebi que ela não está apta apenas para dirigir um carro. Está apta para guiar a própria vida. Ela cresceu. E ao contrário do que esperava não fui tomada pelo sentimento de perda. Hoje, sou apenas orgulho. (RM)

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