arquivo | março, 2012

Um em cada canto

Passeando pela ‘vizinhança’, minha irmã quase vira almoço de onça pintada. Conseguiu tirar essa foto espetacular. Fico pensando como é que pode a gente morar em ambientes tão TÃO diferentes: ela cercada de verde, eu cercada de cinza.

Não bastasse esse choque de realidades, ainda temos um irmão que vive cercado de areia, lá onde o Sheik محمد بن راشد المكتو resolveu brincar de casinha.

Pra coroar o desencontro de paisagens meu pai passa bem mais tempo no mar que em terra firme. Acaba de voltar de uma navegação radical, a travessia do estreito de Drake,  a passagem do Atlântico para o Pacífico, um vento de matar, com icebergs e ondas nada amigáveis.

Somos uma família exótica, vivemos bem longe um do outro e, pra disfarçar a saudade, o segredo é manter o bom humor. Quando a pantaneira mandou a foto da onça por e-mail, o habib Nicolau respondeu:

Querida irmã!

Se você continuar com essas “traquinagens” vou ser obrigado a ir aí, te trago pra Dubai e te atolo aqui na areia!  Melhor aqui com camelo pois camelo não come irmã da gente.

Incrivel!!

Bjs (assustado)!

Kico

PS: Já nao basta o esquimó??

Quer dizer, as fotos e o texto foram só pra explicar a mensagem do irmãozinho, que eu amei e decidi publicar.   (RL)

O Millór do Millôr

Com 12 anos minhas amigas e eu fazíamos agenda e não fazíamos ideia de quem era Millôr Fernandes. A agenda nada mais era que um diário divertido. Recortávamos imagens, palavras, expressões e colávamos na agenda, contando nosso day by day. Uma das palavras que mais usávamos era essa:

 

Trocávamos o circunflexo pelo agudo e tínhamos o:

E assim contávamos, por exemplo, que naquele dia tivemos prova de História. Millór história que matemática. Millór jazz que natação. Millór a Irmã Julieta que a Irmã Ercília. E assim Millór fez parte da nossa adolescência. Com o tempo a agenda perdeu a graça. Crescemos. Saiu o Millór e entrou o Millôr. E nosso day by day se tornou muito Millór . (RM)

“Enterrem meu corpo em qualquer lugar.
Que não seja, porém, um cemitério.
De preferência, mata;
Na Gávea, na Tijuca, em Jacarepaguá.
Na tumba, em letras fundas,
Que o tempo não destrua,
Meu nome gravado claramente.
De modo que, um dia,
Um casal desgarrado
Em busca de sossego
Ou de saciedade solitária,
Me descubra entre folhas,
Detritos vegetais,
Cheiros de bichos mortos
(Como eu).
E, como uma longa árvore desgalhada
Levantou um pouco a laje do meu túmulo
Com a raiz poderosa,
Haja a vaga impressão
De que não estou na morada.
Não sairei, prometo.
Estarei fenecendo normalmente
Em meu canteiro final.
E o casal repetirá meu nome,
Sem saber quem eu fui,
E se irá embora,
Preso à angústia infinita
Do ser e do não ser.
Sol e chuva ocasionais,
Estes sim, imortais.
Até que um dia, de mim caia a semente
De onde há de brotar a flor
Que eu peço que se chame
Papáverum Millôr”

Poeminha: Última Vontade,  de Millôr Fernandes

Não vá ao supermercado com fome

É uma regra básica da cartilha de economia doméstica, que eu teimo em descumprir. Vai entender. Compro granola alemã, xarope de bordo, pasta de pistache e  Za’atar  quando na minha lista consta coador de café, alface romana, sabão em pó e detergente. Como eu detesto o corredor de produtos de limpeza! Quando chego em casa  pior que não sei o que fazer com as coisas que levei por impulso, no calor da fome, às vezes até por idealismo. Outro dia foi quinoa que eu encasquetei de comprar. Pega bem ter uma caixinha de quinoa na despensa.  Já tive o momento linhaça dourada, pêssego em calda, água de rosas e por aí vai, pobres embalagens hoje abandonadas, só aguardando o vencimento. Por sorte a idade me trouxe algum juízo e, mesmo de barriga vazia, quase sempre consigo resistir à sessão de chocolates, biscoitos e bolos. Hoje não deu, eu estava esganada, bateu queda de açucar. Uma força maior desviou meu carrinho que foi parar praticamente dentro da geladeira da Haagen Das. Cometi ali mesmo a insanidade.  Não satisfeita, trouxe mais 2 potes pra casa. Vai que…  (RL)

Pesadelos infantis

Quando era pequena tinha alguns pesadelos recorrentes. Um em particular me perturbava muito: sonhava que um dia ao acordar todas as pessoas do mundo haviam sumido. Eu era a única pessoa que restava na face da Terra. Ficava vagando sem destino em ruas desertas, sem saber aonde ir ou o que fazer. Era desolador. Os fotógrafos Lucie&Simon devem ter padecido desse mesmo pesadelo e fizeram a série Silent World. Eles fotografaram lugares – nas cidades de NY, Paris e Pequim – que são frequentados por milhares de pessoas diariamente, mas que no momento da foto estavam desertos. É como o fim do mundo. Selecionei algumas fotos, mas a série toda pode ser vista aqui. (RM)

 

Times square, NY

Place Montparnasse, Paris

Tian’anmen square, Pequim

Columbus circle, NY

Queensboro bridge, NY

Place de l’Opera, Paris

Madison Square, NY

Muito casaco pra pouco recheio

O moleque aí  embaixo – que dó! –  me fez lembrar uma situação parecida que vivemos há 10 anos, com essa moça aqui em cima.

Ela tinha acabado de fazer 5 anos, morávamos em Boston onde os americaninhos a essa altura da vida já esquiam faz tempo. Compramos toda a parafernália e encaramos as White Mountains na maior animação. Impermeabilizada da cabeça aos pés, capacete afivelado, lá foi a Isabel pra aula mais parecendo uma formiga atômica. A concentração durou minutos, tanta coisa pra olhar, pra que prestar atenção no tiozinho? Ele até que era paciente e ensinava bem, ela é que não estava nem aí, com toda razão. Fiz as contas de quanto pagaríamos por aquela recreação diária na neve, somei esse prejuízo ao frio que me congelava as mãos, os pés, o cérebro, e imediatamente decidi ‘abrir mão’ das aulas inclusive as minhas.

Eu, mãe zelosa, fiquei 3 dias no hotel com ela, só na base do cinnamon roll com chocolate quente! Um sacrifííício enorrrme. (RL)

(O vídeo é uma colaboração da minha amiga Luiza Porto)

A primeira balada

Meia comprida, não quer mais sapato baixo, vestido bem cintado…

E os vestidos que ela experimentou foram muitos. Começaram cobrindo a cama e logo se transformaram em uma montanha. Tirava, colocava, ajeitava, torcia o nariz, partia para o próximo. Acabou escolhendo uma bermudinha e uma camiseta – melhor não causar logo na primeira vez. Ainda que faltassem 4h para encontrar as amigas, já estava de banho tomado e o look já estava escolhido. Resolveu então dar um up no cabelo escorrido. Enrolou, apertou, amassou, prendeu, soltou, lavou de novo, enrolou, apertou, amassou… E conseguiu. Espalhou a maquiagem na pia e fez combinações. Escolheu o gloss rosa. Faltava apenas 1h para sair. Separou o que levaria na bolsa rapidamente, mas a escolha da bolsa levou todo o resto do tempo. Finalmente estava pronta. Ao descer do carro, com a bolsa em uma mão e o celular na outra, voltou o rosto iluminado por um sorriso. Despediu-se. De nós e da infância. Abraçou as amigas e deu alguns passos para entrar na baladinha. Os primeiros passos da sua tão sonhada adolescência. (RM)

O mal é da idade, e pra tal menina, não há um só remédio em toda medicina…

Instinto de curiosidade

Nessa fase babá de cachorro procuro me distrair observando, já que preciso ficar o tempo todo vigiando o fulaninho. Predominam dois comportamentos: morder e fuçar. Nunca vi curiosidade igual. Com 2 meses de vida ele já é um destemido, se mete em todos os lugares, ontem de manhã caiu na piscina. Tudo o que faz é por instinto, sem censura e sem filtro. Aprende muito rápido. Um bebê  ‘humano’ age da mesma forma, põe tudo na boca, quer pegar, examinar.  Só que em algum momento do crescimento a gente se desliga desse instinto básico, se contenta com o que já tem, o que já viu, bate uma preguiça, pra que continuar ‘fuçando’? Gente curiosa se dá melhor na vida. Pra nos lembrar disso, é sempre bom ter um cachorrinho em casa.   (RL)

A dura poesia concreta de tuas esquinas

Conhecer São Paulo na condição de motorista é, no mínimo, cruel. São idas e vindas por entre túneis, viadutos, buzinas, carros, motos, prédios, buracos, ambulantes, cones, acidentes… Um labirinto de asfalto e cimento. A urgência se contrapõe a letargia da espera ao volante. Mas São Paulo é tudo, menos monótona. E nesse labirinto de ruas e avenidas encontro, desafiando o cinza e o cimento, árvores coloridas. Vou contando pelo caminho, procurando, me distraindo. Elas surgem majestosas, desafiando a lei do mais forte. Poderiam simplesmente sucumbir a urgência, ao cimento, ao cinza, a indiferença, a fragilidade. Mas não, resistem. E emolduram nossas idas e vindas com graça, leveza e inspiração. Estão lá para lembrar que é possível endurecer. Perder a ternura, jamais. (RM)

O reparei corre perigo

Escrever bem, com naturalidade, é difícil pra caramba. Por isso me inscrevi num curso, comecei ontem. De cara aprendi que economizar palavras é o canal, nada de textos transbordantes. Que usar termos genéricos como ‘em geral’ e ‘na maioria’, é abominável. Adjetivos então, coisa de amador. Amor, dor, bondade, justiça são palavras que já deram o que tinham que dar, não podem ser escritas apenas demonstradas. Da teoria passamos à leitura dos mestres. Epa! Sacanagem atacar de Dalton Trevisan logo na primeira aula. Pra mim isso é uma ação onde subentende-se: caia fora aluna prolixa, antes de pagar um micão. Veio o dever de casa: 30 linhas pra descrever a frieza de um assassino prestes a matar sua vítima. Tenho até amanhã pra entregar o criminoso. Por isso deixo registrado: esse é meu último post escrito assim, como vim ao mundo. Não sei qual será meu futuro no mundo das letras, posso me tornar uma pessoa violenta, uma escritora curta e grossa, sei lá, mil coisas. Por enquanto só sei que esse pequeno desabafo deveria ter a metade do tamanho. Grrrrrr. (RL)

Cemitério de elefantes

É uma delicia voltar. Em poucos segundos todas as lembranças estão latejando na memória, os sonhos, os hábitos, o sotaque que volta com tudo. Gosto principalmente das ruas limpas, do jeito calmo, das frases polidas, da formalidade sutil, do senso de organização. Voltar para Curitiba é um reencontro comigo mesma. É meu eixo. Dizem que a cidade não é mais mesma, que mudou muito, para pior. Para mim ela continua  linda, discreta, tranquila. Talvez não seja mais assim, mas é como me lembro. Curitiba faz parte do que sou, do que me tornei e talvez seja por essa razão que a saudade muitas vezes não cabe em mim. Por isso é bom voltar e me certificar que ela sempre estará lá, esperando por nós. (RM)

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