arquivo | maio, 2012

Meu reino por um protocolo

Cheguei lá com a pasta recheada de documentos: certidões, formulários, comprovantes e declarações. A fila não era grande, fomos entrando devagarinho, tudo bem orientado, eu estava otimista. Nada como um espirito renovado pois no ano passado passei pela mesma provação e miquei 4 horas em pé. Bem, mas agora sabemos que o sistema evoluiu e, de fato, uma hora depois de chegar, eu estava liberada.

Liberada, desconfiada e preocupada. O americano atrás do vidro não me pediu para provar nada,  entregou uma filipeta azul e disse que eu receberia o passaporte em casa. No tal papel está escrito que fui dispensada da entrevista e que eu deveria pagar o Sedex da entrega. Lá fora o policial informa outra coisa: que o pagamento do Sedex foi abolido e que eu podia ir embora.

Sei…obrigada, valeu, mas moço…mas moço, meu passaporte ficou lá dentro e não tenho um mísero protocolo que prove isso.

Essa modernidade, ou melhor, essa economia de papel está me incomodando um pouco.  (RL)

Como Ver um Filme

Sabe quando a crítica idolatra um filme e você sai do cinema sem entender nada? E com ódio por se sentir um imbecil? Pois é, aqui em casa isso acontece com certa frequência. Pensando nisso, fomos – as meninas e eu – no bate-papo com a Ana Maria Bahiana sobre esse livro que ela lançou, Como Ver um Filme.  Ele é dividido em 2 partes: na primeira ela conta desde a premissa até a distribuição do filme. Na segunda ela fala sobre os gêneros. O livro é feito pra quem, como nós aqui em casa, ama cinema e tem um conhecimento que se restringe a sala de cinema, nada teórico. A leitura é super fácil, divertida e recheada com exemplos de filmes acessíveis. Aliás, a última parte  apresenta uma filmografia bem bacana.  A pequena fez algumas anotações enquanto estávamos no bate-papo:

Voltou para casa feliz da vida por descobrir que, se não entender ou não gostar de um filme, a culpa não dela.

Compramos o livro, ganhamos autógrafo e estamos avançando na leitura.

 

Assim que terminarem, elas pretendem fazer uma crítica do filme que mais gostam. Quem sabe não vem parar aqui no Reparei… (RM)

Desesperar jamais

Ao meio dia fiz o Raio X. Pedi e paguei 160 reais pelo laudo em inglês, expliquei a razão do exame para o simpático técnico, reiterei o detalhe da tradução, agradeci mas recusei a entrega do resultado em casa e confirmei que voltaria no mesmo dia pra pegar o resultado. Pode vir as 3 e meia, disse a moça que me atendeu no guichê 13, senha 2771. As 4 fui para o guichê 11, senha 2783. Infelizmente ainda não está pronto, será que a Sra. pode esperar uns 15 minutos? Poder eu posso moça mas não almocei até agora então vou tomar um lanche rapidinho. Comi, voltei, senha 1786. Agora sim, tudo certo. Paguei 17 reais pelo estacionamento, prisma 183, já são 15 pras 5. Enquanto esperava o carro, abri o envelope: seios costofrênicos livres, parênquima pulmonar com transparência normal. 😦

Nesse momento, como tantas outras vezes, tive a oportunidade de manter a calma, de me tornar uma pessoa melhor nessa vida. E desperdicei.

Veio o supervisor. Prometeu enviar um portador com o laudo traduzido, logo mais, em casa. Ofereceu um taxi, disse que o hospital pagaria a multa do rodizio. Mas a braveza que eu já havia detonado, essa poderia ter sido economizada, essa  não é responsabilidade do Albert Einstein.  Pior que eu não aprendo. (RL)

Pensando bem…

Ele me perguntou umas 3 vezes e em todas eu disse não. Não preciso. Além do mais vivo falando para as meninas não serem consumistas blá blá blá… Resultado: um ódio mortal de mim mesma. É verdade, não preciso de um iPhone, mas sou fascinada pelo Instagram. É a rede social mais interessante do momento. Não tem anúncio nenhum, é fácil de usar e de quebra dá para se sentir um Cartier Bresson. E o mais legal é que não é preciso adicionar ninguém por educação, é só seguir quem nos interessa. São várias histórias contadas em imagens e seguindo pessoas interessantes, dá para rir ou se emocionar facilmente. Uso no iPad então tenho algumas limitações: Instagram é timing – convenhamos que não dá para sacar um iPad no meio da rua e sair tirando foto. Mesmo assim, recusei o iPhone. Resultado: agora todos aqui em casa tem celular com Instagram, menos eu. Toda essa história para concluir que, daqui em diante, entre meus princípios e a minha vontade, ficarei com a segunda opção. É difícil conviver com a culpa. Mas é ainda muito pior conviver com a frustração.  (RM)

Constrangedor


O mundo está sendo obrigado a ficar mais esperto. Atualmente, quem pisa na bola corre o risco de ver sua “pisada”  ganhar o planeta antes que dê tempo de consertar o estrago. Adorei a história da garota escocesa Martha Payne, que colocou as autoridades da cidade em que mora na maior saia justa. Com a ajuda do pai, ela criou o blog Never Seconds, pra falar sobre a merenda escolar. O nome já é ótimo. Never Seconds porque na sua escola era proibido repetir o prato. Martha posta fotos da comida e dá notas, inclusive para o quesito “fios de cabelo encontrados”. Very constrangedor. Logo o blog atraiu a atenção – até de Jamie Oliver – e já contabiliza mais de 1 milhão de clics.  Depois desse banzé, a escola resolveu permitir ‘seconds’ e  acrescentou verduras, legumes e frutas onde antes só havia pizza, frituras e outras gororobas.

Parece óbvio que essa menina vai se dar bem na vida. Só que com o empurrãozinho da internet, ela começa sua carreira de jornalista um pouco antes do esperado, aos 9 anos de idade. (RL)

Noticia completa: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/05/blog-de-menina-com-criticas-a-merenda-obriga-escola-a-mudar-cardapio.html

(colaboração do meu amigo Guima – Lisias Guimarães Alcântara)

Facebook ou divórcio?

Eric Shimidt, presidente-executivo do Google, em discurso aos alunos da Universidade de Boston, pediu aos alunos que usem seus computadores e smartphones sem excesso. Que desliguem esses aparelhos por 1h todos os dias e olhem nos olhos das pessoas ao redor e criem relacionamentos reais. Tem também aquela pesquisa americana onde 1/3 dos divórcios citam o facebook como uma das causas: adicionar, ou pior, curtir quem não pode e comentar o que não deve, dá separação. Que a internet nos aproxima do mundo e nos afasta da vida não é nenhuma novidade. Contamos nossa trajetória pessoal para centenas ou milhares de amigos que mal conhecemos. Criamos uma vida virtual muito mais prazerosa que a real, muito mais fácil de lidar e onde somos mais facilmente amados. Naturalmente que há consequências, mas me pergunto se é possível suspender esse movimento. Os notebooks, ipads, smartphones… nos transportaram a uma nova era. Se debater para não acompanhar esse movimento é inútil, vale mais considerar outras alternativas. O discurso de efeito de Eric Shimidt é prova disso. Transformou-se rapidamente em 140 caracteres. Não desligaram o computador e, tampouco, olharam nos olhos. (RM)

Ídolos

Na mesma semana, dois calafrios: o último episódio de House e a grande final do American Idol. Os seriados americanos são realmente o máximo. Minha filha esteve à beira de uma síncope, organizando o ‘evento’ de despedida do médico frio, arrogante, inescrupuloso, drogado e muito, muito adorado. Enquanto jantávamos, o apple TV fazia o download. Depois, podia ligar o Brad Pitt que ela não atenderia. Diferente das novelas brasileiras, que sempre deixam o espectador ‘p’ da vida no final, ela gostou do desfecho. House continuou fiel ao seu caráter detestável, fiel a seus olhos azuis e não vou contar mais nada pra não ser xingada por aí.

Eu que estava por fora do American Idol, assisti na terça feira sem nem saber que já era véspera da decisão. Gente, uma menina de 16 anos, Jessica, magérrima, canta ao vivo como se tivesse um estúdio de gravação dentro dela. Depois, um garoto de 21, Phillip Phillips (pena o nome), com a voz meio rouquinha, gostosa demais, violão na mão e um carisma megablasterplus. Deu vontade de voltar para os meus 18 só pra poder me apaixonar por ele. Embora a menina seja tecnicamente impecável e ele não, apostei e acertei.  Nesse caso, foi um par de olhos verdes que deu um olé na lógica.  (RL)

Receita de uma infância feliz

Uma das lembranças que mais gosto da minha infância é de quando íamos na casa da minha vó. Não sei se era bem assim, mas tenho registrado que ela sempre estava cozinhando, em qualquer horário do dia. Eu gostava especialmente do momento em que passávamos pelo portão e eu tentava descobrir o que ela estava fazendo só pelo aroma. Hoje até fecho os olhos para lembrar melhor, de tão bom que era. Já da minha casa, a lembrança que tenho é do bolo quentinho e daquele cheiro delicioso invadindo a casa inteira. Na Páscoa, quando fui para Curitiba, minha cunhada fez Madeleine. Nem minha vó, nem minha mãe, nunca fizeram Madeleine. Mas mesmo assim – por alguma razão que Freud há de explicar – lembrei da minha infância. E desde então tenho tentado reproduzir essa sensação, sem sucesso: é mais fácil comprar urânio que forminhas de Madeleine. Por coincidência minha cunhada viajou e trouxe as fominhas para mim. Chegaram na segunda. Ontem, no fim da tarde, abandonei tudo e fui para cozinha, fazer Madeleine. A da minha cunhada dá de 10 na minha, mas não importa. O que importa é que minha casa foi tomada pelo perfume da infância. Ontem, curti a lembrança e a saudade. E nem precisei fechar os olhos. (RM)

O dom de perceber

Por quase 50 anos, de 1915 até o inicio dos anos 60, Norman Rockwell foi o artista responsável pelas capas do Saturday Evening Post. Tornou-se um ícone da ilustração mundial por dois motivos: além do talento para desenhar, ele tinha o dom de perceber. Ninguém retratou com tanta expressão e detalhes as cenas do cotidiano americano. Reparando em coisas simples, ele pintou toda a graça da vida.  (RL)

Without thinking too much about it in specific terms, I was showing the America I knew and observed to others who might not have noticed.
—Norman Rockwell




Xuxa

Há umas duas semanas fui assistir 7 dias com Marilyn, que conta o envolvimento dela com um jovem assistente de direção enquanto filmavam O Príncipe e a Corista. No filme Marilyn contracena com Laurence Olivier, com quem tem enorme dificuldade em trabalhar. Ele é a técnica, ela a intuição. Ontem, ao ver o depoimento da Xuxa no Fantástico, lembrei da Marilyn. Ela também não canta, não dança, não atua. Ela também ganha a tela sem esforço, sem método, sem técnica, apenas com o instinto. São amadas e odiadas pela mesma razão. No filme, Laurence Olivier comenta que Marilyn pegou tudo o que Hollywood jogou nela e triunfou. Xuxa também. (RM)

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