arquivo | agosto, 2012

Oi, bebê

Sou a primeira a incentivar minhas filhas a irem a pé ao clube, ao cabelereiro, padaria, parque, pilates e outras facilidades perto de casa.

Além do chavão “não esqueça e o casaco”, vivo falando o contrário: pra não andarem por aí de shorts, saia curta ou decotão. Porque, infelizmente, a natureza “festiva” dos Brasileiros faz com que uma caminhada pela Rua Mario Ferraz mais pareça uma corrida de obstáculos. Para quem não conhece, essa rua é cheia de lojas, restaurantes, cabeleireiros e obras. Cada estabelecimento posta um manobrista e um segurança na sua devida calçada. Tem também os pedreiros. Desviar dos assobios e frases infames é ‘tipo impossível’, reclamam as meninas.

Não é um assédio grave, é puro passatempo machista, melhor nem revidar. Se bem que nos Estados Unidos iriam todos presos né ? Lá, até elogio de amigo pode dar xadrez. Aqui no Itaim Bibi, o jeito é fazer cara de esfinge e seguir em frente. Enquanto o crime não passar de ‘oi, bebê’, tá dando pra ignorar. Uma rua assim, tão ‘alegre’ e movimentada, não evita constrangimentos mas talvez iniba os assaltantes. É uma teoria, resolvi pegar leve nesse tema .  (RL)

Cinquenta Tons de Cinza

Ao contrário das pessoas que fogem das novidades de massa, me interesso por elas. Mais por ter assunto que pela novidade em si. Ultimamente o tema recorrente entre as mulheres é esse livro, Cinquenta Tons de Cinza. Li sobre a autora, vi reportagens, críticas, resenhas. Amigas enlouqueceram, na livraria foi a primeira indicação do vendedor. Assim, controlando as expectativas, resolvi ler o livro. E não é que não me empolguei? Tentei novamente, vai que estava em um dia ruim. Nada. Me sinto péssima. Não dá um ódio mortal quando nossos sentimentos se rebelam? Por que simplesmente não obedecem? Eu queria tanto gostar, me empolgar e ainda mandar o marido ler como elas fizeram. Mas não vejo a menor graça. Por que todas gostam e eu não? Será que tem cura? (RM)

Que emoção é essa?


A sensação de independência não é tão física quanto aquela, da primeira pedalada sem as rodinhas laterais da bicicleta.

A liberdade que isso traz não é tão imediata quanto um galope, no primeiro dia das férias de julho.

O orgulho que brota é mais íntimo do que quando a professora te chama e anuncia, pra toda a classe, sua nota 10 na prova de física.

E a excitação, apesar do brilho nos olhos, não amolece tanto as pernas como quando o telefone toca, é ele, e temos 15 anos de idade.

Que emoção é essa?

Adrenalina, felicidade, pânico total.

O primeiro emprego.

Vejo minha filha e os filhos das minhas amigas, essa emoção acontecendo agora pra eles.   (RL) 

Melancolia pode ser um estado de felicidade?

 

Talvez seja a necessidade de entretenimento ininterrupto dos dias atuais. Talvez seja a dificuldade em lidar com a situação. Talvez seja a falta de perspectiva. Seja o que for, não tenho paciência para pessoas eternamente melancólicas. Aquelas que não falam, lamentam. Que contam várias vezes a mesma perda ou sentem mais profundamente acontecimentos cotidianos. Pessoas que não passaram grandes dificuldades, mas que sofrem com  pequenas vicissitudes da existência. Se fitassem o horizonte certamente iriam melhorar. Mas preferem ficar assim, arcados, fitando o próprio umbigo, medindo a felicidade pelo nível de amargura. Não tenho paciência. (RM)

 

 

 

Isso não vai dar certo

Comprei um quebra cabeças de 8000 peças e dei de presente para uma amiga querida, que adora esse passatempo. Ou adorava. O marido não se conforma, diz que está a beira do divórcio, ou ele ou o quebra cabeças. Eu disse que comprei na Ri-Happy, nunca imaginei que lá vendessem brinquedos do mal.

Sábado à noite fomos na casa deles. Os 8000 fragmentos estão divididos por cor, em 7 cumbucas. Não são cumbuquinhas dessas pra sementes de papoula, são daquelas maiores, tipo pra torradas de aperitivo. O aniversário foi no fim de junho e só agora, 2 meses depois, ela conseguiu separar tudo. Foi preciso construir uma base de madeira porque não vai caber em cima da mesa. Ufa, um dilema a menos: habemus jantar, apesar do painel inimigo. Tão singela a cena do quebra cabeças, chama-se Casamento Camponês, quanta ironia.

Mas é um presente maligno, que vai se espalhando, se multiplicando, enlouquecendo a pessoa, pelo menos é o que o marido acha.

Pra piorar a minha reputação, enquanto ela mostrava uma dos potes, pimba, escapou da mão uma minúscula peça. Caiu no chão de madeira, peça e piso da mesma cor, oh céus. Nessa hora eu quis sair de fininho mas não deu. O Ricardo baixou de voluntário e agachou pra procurar. Eis a cena:

Acharam a marvada, passando uma faca embaixo do pé da mesa.

Daqui a uns 6 meses eu telefono pra sentir o meu ibope.   (RL)

Não existe receita pra tudo

Verinha, me passa a receita da moqueca?

Tem receita não D. Rejane vai tudo assim, de olho. Faz assim: primeiro faz uma pasta de alho, sal e limão. Bate tudo no pilãozinho. E coloca no peixe.

Quanto de peixe eu faço?

Um bocado de peixe D. Rejane, as coitadinha comem feito jeito grande. Deixa o peixe lá. Depois fatia pimentão, só pimentão verde e amarelo, o vermelho desgraça qualquer comida. Depois fatia a cebola e o tomate, o tomate tem que ser bem maduro. Vai montando a moqueca com esses ingredientes mais coentro.

Não vou colocar coentro não, não gosto.

Valha-me Nosso Senhor!! – se benzendo. Não gostar de coentro é heresia D. Rejane. Quando era menina ruminava coentro enquanto mainha fazia a comida. Olhe D. Rejane, com todo respeito, se for pra não colocar coentro nem adianta ensinar como faz. Num vai prestá.

E foi assim que fiz a moqueca ontem. Sem receita. Assim como foram feitas as comidinhas mais gostosas que já provei, de mãe, de tia, de vó. Comidinha assim, de olho. Com um bocado daqui, uma heresia dali e amor de todos os lados.

*Verinha chama as meninas de coitadinhas. E sempre acrescenta que as coitadinha são as crianças mais bem domesticadas que ela já conheceu em toda a vida. E ela estava certa: as coitadinha comeram feito gente grande. (RM)

Malditas pequenas decisões

De manhã bem cedo eu sempre acho que vai dar tudo certo, decido mil coisas, faço uma lista, não me falta convicção pra nada. Mas conforme o dia acontece, a força de vontade esmorece. Não vou comer sobremesa, aí eu como. Não vou checar meu e-mail 300 vezes nem andar com o celular na mão, mas eu checo e ando. Vou dar uma arrumada geral na papelada, acabo só mudando a pilha de lugar. Vou fazer a bainha de 3 calças, comprar um ferro de passar, marcar oculista e dentista, agendar a inspeção veicular.

Lá pelas 3 da tarde, já arranjei desculpas pra adiar quase tudo. Bastou decidir pra não cumprir, funciono melhor no improviso.

Ontem, sexta feira, a tortura master foi ter que obedecer uma resolução radical, tomada num momento de crise, em nome da harmonia familiar e do dinheiro investido na decoração da sala: decidimos (em julho, antes das férias) que essa criatura inocente só pode circular no terraço e no jardim, entrar em casa nunca mais. Concordei sem pensar, havia testemunhas, resulta que agora não posso voltar atrás, que ódio!

É certeza que, daqui pra frente, passo a decidir só em pensamento.  Boca fechada não entra mosquito.  (RL)

Linha de produção

O consultório tem uma sala de espera e quatro salas para atendimento. Em cada sala fica uma assistente. Entramos na segunda. A assistente faz os preparativos ao mesmo tempo que pergunta sobre a evolução do tratamento. Digita as informações. A ortodontista entra na sala.

Sorri / Oi querida, tudo bem? / A assistente repassa as informações rapidamente / Abre a boca da minha filha / Vê a arcada / Vê o aparelho / Parabéns, evoluiu muito bem / Pode apertar o aparelho a cada 15 dias / Te vejo daqui a um mês / Qualquer problema, entre em contato /  Continua linda! / Prazer em revê-la / Sorri / Sai da sala / Vai para a sala 3 / Saímos da sala / Vamos para a recepção / Pagamos / Recebemos as orientações impressas / 11 minutos após o início da consulta saímos do consultório.

Dois séculos após a Revolução Industrial, somos nós o insumo? (RM)

Elementar, meu caro

Facilitar o cotidiano é uma tendência de comportamento que vem de fábrica, está no DNA dos seres humanos embora muita gente passe a vida atrapalhando essa predisposição genética, preferindo repetir rotinas complicadas, infinitamente. Eu admiro as pessoas que buscam soluções, que inventam coisas práticas, que aperfeiçoam, melhoram, que fazem limonada de uma tarefa azeda.

Essa engenhoca da foto quebrava o galho dos cozinheiros palacianos, no século 19. Servia pra espremer ossos de pato. O caldo que escorre era um ingrediente vital no preparo do famoso Canard a la presse. De tanto apertar pato, alguém resolveu mecanizar o processo, muito requintadamente aliás.

A primeira foto tirei no museu, a segunda num supermercado. Cada carrinho tem a sua lupa. Resolve total o problema das letrinhas minúsculas, impressas em rótulos econômicos. E nossas vistas cansadas agradecem.

Hoje em dia, “na modernidade”, o pato já vem embalado, sem osso, limpinho e congelado. Mas pra não correr risco de pagar o pato, chegar em casa e descobrir que é coelho, melhor comprar em Viena, onde alguém teve essa ideia, tão elementar.  (RL)

Miudezas

Então o tempo vai passando, as coisas vão mudando e eu vou tentando me adaptar. De todas as exigências de um novo tempo, a que mais tenho dificuldade em absorver é a velocidade. Uma leitura por exemplo. Adoro ler com calma, me encantar com a forma, com as palavras escolhidas. Fico maravilhada com as possibilidades que alguns escritores encontram de contar uma história. Chego a ler o parágrafo mais de uma vez. A leitura é lenta porque não consigo apenas ler, preciso me deslumbrar. Em uma refeição é a mesma coisa. Não consigo sentar e devorar. Preciso saborear. E assim postergo o término de tudo aquilo que me alegra. Sou a que demora mais para ler, comer, cozinhar, para apreciar qualquer coisa. Valorizo mais o durante e não o fim. Antes do resultado, necessito do prazer do processo. Esse novo tempo frenético, de leitura dinâmica e fast-food, de sensações e não de sentimentos, me causa estranhamento. O tempo vai passando, as coisas vão mudando e não consigo me adaptar. (RM)

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