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Linha de produção

O consultório tem uma sala de espera e quatro salas para atendimento. Em cada sala fica uma assistente. Entramos na segunda. A assistente faz os preparativos ao mesmo tempo que pergunta sobre a evolução do tratamento. Digita as informações. A ortodontista entra na sala.

Sorri / Oi querida, tudo bem? / A assistente repassa as informações rapidamente / Abre a boca da minha filha / Vê a arcada / Vê o aparelho / Parabéns, evoluiu muito bem / Pode apertar o aparelho a cada 15 dias / Te vejo daqui a um mês / Qualquer problema, entre em contato /  Continua linda! / Prazer em revê-la / Sorri / Sai da sala / Vai para a sala 3 / Saímos da sala / Vamos para a recepção / Pagamos / Recebemos as orientações impressas / 11 minutos após o início da consulta saímos do consultório.

Dois séculos após a Revolução Industrial, somos nós o insumo? (RM)

Elementar, meu caro

Facilitar o cotidiano é uma tendência de comportamento que vem de fábrica, está no DNA dos seres humanos embora muita gente passe a vida atrapalhando essa predisposição genética, preferindo repetir rotinas complicadas, infinitamente. Eu admiro as pessoas que buscam soluções, que inventam coisas práticas, que aperfeiçoam, melhoram, que fazem limonada de uma tarefa azeda.

Essa engenhoca da foto quebrava o galho dos cozinheiros palacianos, no século 19. Servia pra espremer ossos de pato. O caldo que escorre era um ingrediente vital no preparo do famoso Canard a la presse. De tanto apertar pato, alguém resolveu mecanizar o processo, muito requintadamente aliás.

A primeira foto tirei no museu, a segunda num supermercado. Cada carrinho tem a sua lupa. Resolve total o problema das letrinhas minúsculas, impressas em rótulos econômicos. E nossas vistas cansadas agradecem.

Hoje em dia, “na modernidade”, o pato já vem embalado, sem osso, limpinho e congelado. Mas pra não correr risco de pagar o pato, chegar em casa e descobrir que é coelho, melhor comprar em Viena, onde alguém teve essa ideia, tão elementar.  (RL)

Miudezas

Então o tempo vai passando, as coisas vão mudando e eu vou tentando me adaptar. De todas as exigências de um novo tempo, a que mais tenho dificuldade em absorver é a velocidade. Uma leitura por exemplo. Adoro ler com calma, me encantar com a forma, com as palavras escolhidas. Fico maravilhada com as possibilidades que alguns escritores encontram de contar uma história. Chego a ler o parágrafo mais de uma vez. A leitura é lenta porque não consigo apenas ler, preciso me deslumbrar. Em uma refeição é a mesma coisa. Não consigo sentar e devorar. Preciso saborear. E assim postergo o término de tudo aquilo que me alegra. Sou a que demora mais para ler, comer, cozinhar, para apreciar qualquer coisa. Valorizo mais o durante e não o fim. Antes do resultado, necessito do prazer do processo. Esse novo tempo frenético, de leitura dinâmica e fast-food, de sensações e não de sentimentos, me causa estranhamento. O tempo vai passando, as coisas vão mudando e não consigo me adaptar. (RM)

Freud explica

Acho que é porque ainda estou em Viena, terra do pai da psicanálise, que me permiti uma insanidade. Entrei na farmácia, comprei tintura marrom chocolate e, uma hora depois, estava com os cabelos completamente pretos. Piorou quando bateu uma luzinha, apareceram nuances acaju. Deu errado a química mas pelo menos sumiram os fios brancos. E estou rindo até agora, eu que não vou ficar chorando em euros.

Pode ser que Freud revire na tumba mas ouso afirmar que a culpada por esse ato de loucura é Sissi, a imperatriz, que era linda e amava seu cabelo. Fiquei na maior tristeza quando descobri, ontem mesmo, que ela não foi assim, uma Romi Schneider. Que foi profundamente infeliz, enfrentou a morte de dois filhos, nunca se sentiu a vontade na corte aliás detestava ter que cumprir as obrigações da nobreza e inventava mil viagens pra fugir desse mundo. Mesmo tendo o imperador Franz Joseph a seus pés, mesmo com toda a pompa, a riqueza e o poder do império Austro-húngaro, Sissi não conseguiu superar a perda da liberdade que o casamento lhe impôs.

150 anos depois, modestamente sob influência, eu só tentei me libertar do cabeleireiro. Nem isso.  (RL)

Mããããããe…

Você viu minha calça do uniforme? Posso ir na casa da Julinha? Mãe, a Bia pode vir almoçar aqui? Mãe, posso comprar dois lanches no recreio? Mãe, escreve um bilhete me autorizando a sair do colégio na hora do almoço? Mãe, posso fazer a viagem de Santos? Mãe, onde eu compro uma gravata borboleta? Mãe, você dá carona pra Raquel? Mãe, posso dar uma festa? Mãe, você pegou meu livro? Mãe, empresta o fone? Mãe, posso falar pro professor que ele não sabe explicar a matéria? Mãe, hoje eu posso ir na frente? Mãe, essa música é do seu tempo? Mãe, o que vai ter de almoço? Mãe, posso sair do colégio e estudar em casa? Então posso sair do colégio e não estudar? Posso fazer um intercâmbio? Posso casar com o Niall? Posso fazer o X-Factor? Mããããe, isso aqui é uma espinha? Mãe, tem que certeza que você vai sair assim? Mãe, por que você não responde? (RM)

Bodas de meia hora

Acho que é um fenômeno do verão Europeu. Sim, porque no frio as ruas vestem–se de cinza. As emoções ficam escondidas nos cachecóis, nos sobretudos e gorros. E uma noiva, toda branca e feliz, combina muito mais com um dia bem decotado.

Nunca vi tantos recém casados.

Quanta estrada pela frente né?

Parece que foi ontem.

(RL)


Eu vi um assalto

Foi a primeira coisa que me falaram quando entraram no carro, depois do colégio. Hoje era pra ser um dia legal, disse a pequena. Era mesmo. O pai chegou ontem de viagem, foi levá-las para escola. No caminho viram um assalto. Três adolescentes assaltaram os 2 carros da frente, quebraram o vidro, agrediram uma mulher, empurraram um carro contra o outro, atingindo um terceiro carro que estava ao lado. Fugiram correndo. Levaram bolsa, celular e outros pertences. Levaram também um pouco das minhas filhas. Levaram um pouco da esperança, do senso de justiça e, o pior, uma parcela de bondade. A violência não dilacera pelos bens materiais, mas pelas marcas que deixa no nosso íntimo. Ela arde, quando não arde, queima. E assim se dissemina. Do episódio, elas guardaram a imagem da mulher semi-consciente, com o rosto encoberto de sangue. Guardaram a impotência, o medo e a pergunta: mãe, quando será que vai acontecer com a gente? (RM)

Mão Boba

…que ataca o turista desavisado. Pensa que é só no Brasil? Que nada, aqui em Praga ladrão é uma praga (que péssimo isso, desculpe, mas estou tentando ser espontânea e as vezes dá muito errado).

Ontem voltamos para a República Tcheca, dessa vez para a capital. No trajeto, 3 casais se perderam do grupo, acabaram  pegando a auto pista e chegaram antes no hotel. Saíram pra dar uma voltinha e logo foram roubados. Foi-se a bolsa com cartões de crédito e passaporte.  Na verdade já sabíamos que pegar taxi na rua é pedir pra se estrepar pois aqui os motoristas são temperamentais, andam armados e ai de quem contesta o que eles cobram. Mas assim, dentro de uma loja, com câmera de vigilância e tudo? Pensar que na Alemanha deixávamos o capacete pendurado na moto e a chave no contato!

Bom, mas como só temos hoje pra conhecer a cidade – que é linda – óbvio que vamos encarar.  Já repensei a bolsa, vou com uma pretinha feiosa básica (que era só para a moto), dessas de transpassar. Passaportes deixo no cofre do quarto, substituo o taxi pelo trem e, apesar da meteorologia afirmar que o dia será de sol absoluto,  levarei meu fiel guarda chuva.

Porque em qualquer canto do mundo, a melhor defesa é o ataque.

Porque acabo de ser informada que as mulheres daqui são deslumbrantes, que é pra eu esquecer o ladrão e me preocupar com o marido. Então tá. (RL)

Um + Um = Um

Quem não é sensível ao elogio? De todas as armadilhas da vaidade ele é, sem dúvida, o mais sorrateiro. Ainda que não alimente a mente, preenche o íntimo, eleva o ânimo, desequilibra a alma. Vicia. Acomoda e germina a soberba. A crítica consome o espírito, impulsiona mudanças e transformações, edifica gestos e caráter. Aniquila a coragem, ceifa a esperança. E assim, nem só um ou só outro me convém. Apenas os dois juntos. (RM)

Hop on, hop off

Se hoje é terça feira devo estar em Dresden.

Desde que saímos de Viena, dia 6, já passamos por Hungria, Polônia, Eslováquia, Republica Tcheca e agora Alemanha. Tenho horror a pinga pinga mas de moto não tem jeito, a ideia é mais rodar que chegar. Pelo menos o fuso horário vem junto.

Mas estou feliz. Minha performance na garupa melhora diariamente: tenho praticamente um ‘Image Bank’  de fotos de curvas, já ponho e tiro o capacete sem arrancar o brinco, consigo pagar a gasolina em qualquer língua, fiquei amiguinha dos mapas.

Nas cidades mais importantes temos um dia livre, lá vamos nós de city tour, outra coisa que não tem a minha cara mas que aprendi a desfrutar. Simplificando: quando não estou de capacete, estou de fone de ouvido, prestando atenção no audio guide; quando não é o mapa das estradas, é o mapa da cidade que preciso entender. Rápido, senão não dá tempo de entrar no palácio. Esqueci o nome do palácio.

E abre mala e fecha mala, pega chave, devolve a chave, do you have wi-fi? Yes? Então, até o fim do dia, danke schoen!  (RL)